sexta-feira, 5 de novembro de 2010

FALSIDADE



Caíram pérolas das tuas gargalhadas.

Não sei porque é que às noites,
não sucedem sempre os dias. Fica tão escuro!
E eu enrolada em breu.

Não sei porque é que a lua se encolhe tanto
e não deixa passar os pontos cardeais.
E eu tão perdida!

Não sei porque é que o céu se abre em chuva
e piso torrões tão duros.
E eu com gretas cá dentro!

Não sei porque é que a terra engravida de tanto húmus
e os cardos não medram.
Tenho o  pensamento paraplégico!

Mais uma pérola caiu da tua gargalhada.
Gentil, terna, mansa?
Não. 
Pérfida, 
madrasta,
dissimulada!

 Mas claro que tens razão.
Não sei nada. Ou sei?
Sei que caíram pérolas falsas das tuas gargalhadas.

MV

domingo, 24 de outubro de 2010

SEM TÍTULO (V)


No lugar onde o vento pára
acalmam os olhos rasos de tempestade.
Imobilizam-se os poros da terra
repousa o cardo,
a urze, a esteva.
O dorso do rio prende a canção nocturna
enquanto a lua suspende a respiração.
Nas estrelas o estremecimento pára
e as aves recolhem o voar.
Do céu um silêncio parido
abençoa a terra sem o mais leve movimento.
Ela é a única que se eleva
para não se afogar na virgindade do silêncio.


MV

sábado, 16 de outubro de 2010

ISABEL MONTEVERDE


Fecho os reposteiros, para recordar.
A luz chega-me do interior,
Doce, dourada, sobre as vinhas ,
(poeira a repousar sobre as vírgulas)
Cobrindo-lhes as formas e o fulgor.


Tão frágil, como a vida dos pirilampos,
(ou nos cantos da casa as lembranças)
É, deste sonho, o despertar para a dor.
Não te quero aprisionar.
Quero ver-te voar.
Quero ver-me transcender,
As letras soltas, ao entardecer
MV

Uma última e singela homenagem à artista plástica, amiga e grande mulher ISABEL MONTEVERDE, com a publicação de um dos seus poemas  e de um dos seus trabalhos plásticos.
Obrigada Isabelita, por tudo o que comigo partilhaste.

sábado, 9 de outubro de 2010

ÀS VEZES


Às vezes basta-me a lua
a descansar no dorso do rio
ou o poente a imobilizar a planície.
Um riacho vagabundo
a adormecer um dossel  de ervas
ou o rebentamento de uma aragem morna
a escorregar do azul inocente do céu.

Às vezes basta-me o dia a abrir-se
com lassidão 
ao tenro botão de rosa.

Que imensa e pura beleza!

Apetece-me aplainar
as irregularidades que trago na alma,
ocultar todos os receios nas pálpebras.

E logo nos olhos me bailam danças
em que as asas feridas
se soturam com fios de alegria.

MV

domingo, 3 de outubro de 2010

VENTO



 Maestro de orquestra do ar
de batuta em direcções livres.
Algazarra de línguas desentendidas
entre as malhas frágeis do silêncio.
Açoita e algema nuvens
que choram gotas desiludidas,
desalinha a serenidade do ar,
grita canções asfixiadas,
desfaz carreiros de formigas
em furiosas golpadas.
Ateia o lume da fogueira
entre palavras quase abrasadas.

Vento! Símbolo arruaceiro do coração,
voz da poesia onírica escrita pelas mãos.

MV

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

VÍCIO


Há noites assim.
Baixam, semeando o canto do rouxinol.
Abeiram-se debochadas
listadas de cheiros apontados ao peito.
Hortelã
Canela
Tília
Cheiros inflamados
a trincar o orgulho
que cai por terra em pedaços.
Esvai-se..e é o ópio da loucura.
Endoidece-se
valsando sonhos em noites de miragem.
Saudades vagueiam… é vício intrincado.

MV

sábado, 4 de setembro de 2010

LEVITAÇÃO



Toquei na vidraça invisível da lua.
Enlaçada no seu brilho de prata,
entrei.
Senti o vigor de mãos a falarem,
tactearam-me olhos  de luz,
acorrentaram-me braços
num abraço de alienação.

Ao infinito, muito infinito
fui chegando sem rota
sem direcção
sem hoje, sem ontem
e sem amanhã.

Acostei a cabeça aos olhos da lua
e adormeci em lençóis de vento.
Caminhei por caminhos desviados da razão
enquanto me esquecia que daí a pouco
podia já não ser nada.

MV

sexta-feira, 16 de julho de 2010

SEM TÍTULO (IV)



 Dedos! Feridas!
Que combinação tão imperfeita
desenhaste com os teus fios de luar!
Para onde levaste tu, ó lua,
a alegria que em cada acordar me sussurrava   -  Bom dia?
Fugiu-me do peito?
Talvez descanse no branco da magnólia.
Ou no restolho da seara cortada.
Debicada pela ave que me entontecia?
Ou talvez escrita apenas
na língua dessa boca tão vazia!

MV

sexta-feira, 18 de junho de 2010

SONHOS POR ARRUMAR



Acorda calma a manhã.
Preguiçosa. A bocejar.
Parece que a força da Natureza
desafia à serenidade
com vontade de tudo arrumar.

O vento preso na brisa amena
adormece as nuvens em suave deslizar.
O sol indolente no raiar
aquieta o brilho provocante do roseiral.
A gata  enrosca-se no seu abrigo
sem vontade de me afagar.

E é então que me apetece arrumar-me.

Sereno as mãos em gestos de seda,
indolentes no versejar.
Arrumo o olhar no casulo da mariposa,
preguiçoso em se soltar.

Parece estar tudo aprumado no seu lugar.
Só restam sonhos e mais sonhos,
alguns muito difíceis de arrumar.

MV

terça-feira, 8 de junho de 2010

SEM NOME



 Não sei o nome desta chuva
densa e negra
que me dói no peito.

E lá fora apenas pinga.

Vergasta o vidrado do peito,
quebra o verniz do olhar,
esgaravata na essência da alma,
sulca feridas desnecessárias.

E lá fora pinga. Apenas pinga.


MV