domingo, 2 de janeiro de 2011

INDECISÃO


Assim viver
entre sol e sombra
é como acordar
e ver com olhos nublados
o voo dos pássaros.

Assim viver
é humilhar o acordar de cada dia.
É ter uma mão a refrescar-se no rio
e a outra a queimar-se em brasas de carvão.

É acto de cobardia
suspender assim as mãos do destino
sabendo que ele pode ser quartzo,
pássaro,
onda calma,
estrela de olhos a sorrir
ou
pedra fria,
víbora,
charco de lama.

Decide, que as indecisões perfuram o peito.

Escolhe a sombra
e vive em escombros deixados pela saudade.
Ou escolhe o sol
e sonha enquanto um  único raio brilhar.

Ou não escolhas
e vegeta.

MV


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

INCÓGNITA


Tempo
veloz
lento

De sabor a sal
a mel

De permeio
o prenúncio

a brisa
o tufão

Hoje
não sei

MV

sábado, 27 de novembro de 2010

VOCAÇÃO


Procuro a razão
de tão vincada vocação.

Escolho sempre vidros opacos
ou a margem do rio
onde não há multidão.

Modelo mil razões
e nenhuma me responde.
Uma encomenda recolhida à nascença
ou hábitos pespontados no tempo?

Das mil razões
que faço e desfaço
há-de haver uma
que me faz ser
coração tão isolado.

MV

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

MESMO ASSIM


Um verso de água
brotava da neblina inflamada.
Sôfrego
bebia o azul do mar
até lhe sobrar apenas o incolor.

Os olhos sabiam do abismo do mar
e sabiam do delírio do verso
que voava rente  à fluidez da espuma.
Sabiam ainda que o azul não ressuscitava.

Mesmo assim
entre línguas de areia
o verso surpreendeu os lábios
num beijo de cristal.

E o verso naufragou.

MV

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DE REPENTE


Outra vez sentada no jardim
de cotovelos apoiados
no parapeito do meu silêncio.

Sinto as raízes da inquietude a habitarem-me.
A espremerem-me em dentadas.

No lago, sob os velhos chorões
o cisne coça-se debaixo da asas.
Sacode as penas, sacode o ar.

Fragrâncias alastram em liberdade.

E de repente…

afasta-se a inquietude que me povoa
segue a excitação dos pássaros
afinca-se nas copas das árvores
e, cheia de sono, adormece
enquanto o café que bebo,
me fala baixinho de pétalas de ti.

MV


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

FALSIDADE



Caíram pérolas das tuas gargalhadas.

Não sei porque é que às noites,
não sucedem sempre os dias. Fica tão escuro!
E eu enrolada em breu.

Não sei porque é que a lua se encolhe tanto
e não deixa passar os pontos cardeais.
E eu tão perdida!

Não sei porque é que o céu se abre em chuva
e piso torrões tão duros.
E eu com gretas cá dentro!

Não sei porque é que a terra engravida de tanto húmus
e os cardos não medram.
Tenho o  pensamento paraplégico!

Mais uma pérola caiu da tua gargalhada.
Gentil, terna, mansa?
Não. 
Pérfida, 
madrasta,
dissimulada!

 Mas claro que tens razão.
Não sei nada. Ou sei?
Sei que caíram pérolas falsas das tuas gargalhadas.

MV

domingo, 24 de outubro de 2010

SEM TÍTULO (V)


No lugar onde o vento pára
acalmam os olhos rasos de tempestade.
Imobilizam-se os poros da terra
repousa o cardo,
a urze, a esteva.
O dorso do rio prende a canção nocturna
enquanto a lua suspende a respiração.
Nas estrelas o estremecimento pára
e as aves recolhem o voar.
Do céu um silêncio parido
abençoa a terra sem o mais leve movimento.
Ela é a única que se eleva
para não se afogar na virgindade do silêncio.


MV

sábado, 16 de outubro de 2010

ISABEL MONTEVERDE


Fecho os reposteiros, para recordar.
A luz chega-me do interior,
Doce, dourada, sobre as vinhas ,
(poeira a repousar sobre as vírgulas)
Cobrindo-lhes as formas e o fulgor.


Tão frágil, como a vida dos pirilampos,
(ou nos cantos da casa as lembranças)
É, deste sonho, o despertar para a dor.
Não te quero aprisionar.
Quero ver-te voar.
Quero ver-me transcender,
As letras soltas, ao entardecer
MV

Uma última e singela homenagem à artista plástica, amiga e grande mulher ISABEL MONTEVERDE, com a publicação de um dos seus poemas  e de um dos seus trabalhos plásticos.
Obrigada Isabelita, por tudo o que comigo partilhaste.

sábado, 9 de outubro de 2010

ÀS VEZES


Às vezes basta-me a lua
a descansar no dorso do rio
ou o poente a imobilizar a planície.
Um riacho vagabundo
a adormecer um dossel  de ervas
ou o rebentamento de uma aragem morna
a escorregar do azul inocente do céu.

Às vezes basta-me o dia a abrir-se
com lassidão 
ao tenro botão de rosa.

Que imensa e pura beleza!

Apetece-me aplainar
as irregularidades que trago na alma,
ocultar todos os receios nas pálpebras.

E logo nos olhos me bailam danças
em que as asas feridas
se soturam com fios de alegria.

MV

domingo, 3 de outubro de 2010

VENTO



 Maestro de orquestra do ar
de batuta em direcções livres.
Algazarra de línguas desentendidas
entre as malhas frágeis do silêncio.
Açoita e algema nuvens
que choram gotas desiludidas,
desalinha a serenidade do ar,
grita canções asfixiadas,
desfaz carreiros de formigas
em furiosas golpadas.
Ateia o lume da fogueira
entre palavras quase abrasadas.

Vento! Símbolo arruaceiro do coração,
voz da poesia onírica escrita pelas mãos.

MV