segunda-feira, 9 de novembro de 2009

PUGILISMO NO CORAÇÃO


De um lado
o vermelho rubro do coração.
Do outro
o cinzento pugilista da razão.

Sob os pés dançarinos
um ringue de palavras em dúvida.
Os músculos retesam-se.
Os punhos avançam.
O combate começa.

Espectadores praguejam.
Incitam.
As apostas estão em jogo.
Que ganhe o coração!
Que ganhe a razão!

E os pugilistas em golpe baixos
ensanguentam a lua
ensombram o sol
rebolam-se no ringue
já riscado de sangue.

Rasga-se um novo olhar…

Espreitam pelas ameias do medo.
E abraçam-se. E fundem-se.
O árbitro anula o combate.
Não vence o coração! Não vence a razão!

Estranhos são os humanos
que erguem ringues de pugilismo
dentro do coração.

MV

sábado, 24 de outubro de 2009

VERDE

foto MV

Sempre as palavras a viverem dentro da cerca
quase secas, quase esquecidas

Pedem aos dedos que as exortem
a desbravarem-se em colinas de afecto

Aspiram libertar odores da lua
inflamar o ar em que se propagam
desvendar o mistério dos passos com que dançam

Mas o seu perfume fica sempre inatingível

Se as palavras não soletrassem na gaguez
se fossem capazes de tocar a tua alma
o verde em mim funcionaria

MV


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

PARADOXOS

Foto do blogue SOANTES
http://soantes.blogspot.com


Por detrás das cortinas
olhar dissimulado
ao passar das horas mudas.
Agitadas.
Longas.

Estendendo o tempo
quase ao limite da ruptura.

Horas de há muitos dias
inscritas nas paredes
sufocadas de ilusão.
Inscritas nos mosaicos amassados
pelo acotovelar do riso da vespa
e da lágrima da borboleta.
Inscritas no tecto
a coalhar instantes
de tudo e de nada
de luar e de escuro.

MV

sábado, 3 de outubro de 2009

INTERPRETAÇÃO


Sempre o amor se escreveu em textos.

Com verbos presentes, futuros ou passados
palavras que acordam a rir em cada instante
ou adormecidas com os olhos cansados.

Com advérbios de lugar e de tempo
onde o amor espreita por frestas embriagadas
ou à noite se deita em lençóis de lamento.

Com substantivos concretos e abstractos
em palavras de nítida caligrafia
ou em palavras que falam a língua dos astros.

Com adjectivos perto ou longe do coração
para qualificarem as inúmeras palavras
que enchem o côncavo da mão.

E assim o amor se compõe em textos
tão gramaticalmente correctos.

E revista a pontuação
acontece uma e outra leitura
a que não conseguimos dar interpretação.

MV

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

QUATRO VERBOS PARA UM DIA

Levanta-se esporeada
com o cheiro ácido dos lençóis

Navega no silêncio duro
em águas de suor

Rema vadia
com remos apodrecidos pelo sal

E de asas quebradas
espreme da memória
o cheiro doce
antes aceso nos lençóis

MV

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

TOADA


Abrir a gaiola em que me prendo
e soltar as toadas que no silêncio toco

Num sopro fazê-las chegar
e acordar em ti a música
que não me abstenho de ouvir

Serão flautas violinos violoncelos
um bombo estridente que acorde a noite
e te leve o canto desafinado
que tenho escondido no foles do dia

MV


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

COR DA RESIGNAÇÃO


Veste-te de rosas
se a fera te açoitar

Veste-te de cravos se
a sanguessuga te sorver a alegria

Veste-te de lírios
se a lama te abafar a pele

Veste-te de malvas
se o lacre te colar os dedos

Ou veste-te de luto
no dia em que te rendas
resignada
à ferida a alastrar no peito
à enfermidade da alegria
ao adensar da lama

Veste-te de preto-luto
no dia em que não consigas violar o lacre
assente entre os dedos das mãos.

MV

(dedico este registo ao Jota - blogue POEMAR- TE)

domingo, 30 de agosto de 2009

ACORDAR



Morder os sentimentos até ao osso
para que as palavras comecem a falar
-seja a gemer, seja a gritar.

Que a planície acorde da lassidão
e acordem as mãos que retraio no peito
Que sopre uma brisa musical
e me devolva as cordas do violino
Que as pupilas cresçam nómadas
e descubram novos fulgores para os sentires
na íris, há tanto tempo acomodados
Que o luar me volte a lamber os dedos
e faça estremecer as imagens apagadas no peito.

MV


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

VAZIO

foto MV




Madruga a pomba
com os versos adormecidos no arrulhar.
Absorve a atmosfera vazia.

Morre, por instantes, o poeta
quando escreve toda a emoção na poesia?

MV


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

SEM TÍTULO (II)


foto MV



Como os dedos pousam leves
nas teclas do piano
a andorinha de asa azul
pousou sobre a pérgola da tarde.

Sonatas vão-se desfolhando…
trespassando a espessura dos sentimentos.

Deixo-me “prostituir”
submissa ao chamamento de Tristesse
enquanto afrouxam os pregos de aço do dia.

O silêncio torna-se livre.
Abro a mão e solta-se a borboleta.

MV