domingo, 30 de agosto de 2009

ACORDAR



Morder os sentimentos até ao osso
para que as palavras comecem a falar
-seja a gemer, seja a gritar.

Que a planície acorde da lassidão
e acordem as mãos que retraio no peito
Que sopre uma brisa musical
e me devolva as cordas do violino
Que as pupilas cresçam nómadas
e descubram novos fulgores para os sentires
na íris, há tanto tempo acomodados
Que o luar me volte a lamber os dedos
e faça estremecer as imagens apagadas no peito.

MV


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

VAZIO

foto MV




Madruga a pomba
com os versos adormecidos no arrulhar.
Absorve a atmosfera vazia.

Morre, por instantes, o poeta
quando escreve toda a emoção na poesia?

MV


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

SEM TÍTULO (II)


foto MV



Como os dedos pousam leves
nas teclas do piano
a andorinha de asa azul
pousou sobre a pérgola da tarde.

Sonatas vão-se desfolhando…
trespassando a espessura dos sentimentos.

Deixo-me “prostituir”
submissa ao chamamento de Tristesse
enquanto afrouxam os pregos de aço do dia.

O silêncio torna-se livre.
Abro a mão e solta-se a borboleta.

MV


sábado, 25 de julho de 2009

RASGÃO


foto MV



Nos arrabaldes das mãos
um caminho de silêncios.
Loendros inertes.
Tílias sossegadas.
Apenas o sopro do candeeiro teima escrever
uma mendicidade de palavras.
Amarelas.

Já a noite vai alta.
Já não me pode pertencer. Nem eu a ela.
Fecho com um pé a porta.
Devagar.
Com o outro esmago
o que as fendas dos lábios queriam dizer.
Uma prosa sem sentido.
Talvez há muito rasgada.

MV

domingo, 19 de julho de 2009

ARMADILHA



Quadrado de terra ácida
adocicada pelo esplendor do trigo.

Arestas soltas dos vértices
presas por colheres de mel

Ângulos rectos a deformarem
pelo desvio do esquadro à régua

Poliedro de imprecisa essência
esboço de um projecto armadilhado

MV

sexta-feira, 10 de julho de 2009

MULHER



foto "pauta lírica" do autor do blogue Soantes
http://soantes.blogspot.com





Mulher essência de terra
busca permanente de água.

Cinzel feito de amor
e nos dedos o cheiro a hortelã.

Nos olhos uma “pauta lírica”
solta andorinhas
em passeios de diferentes línguas.

As línguas da rocha, do vento ou do riacho.

Mulher trigo, uva, fio de azeite
saia e manguitos de chita
a esculpir na terra estátuas de água e vento.

MV


quinta-feira, 2 de julho de 2009

ASSIM SEJA

foto MV

Assim seja
reconhecer-te
no respirar doce do rio.

Cheiro a alfazema
que me perfume o peito
Sumo de uva
a aveludar-me a garganta.

Assim seja
zumbido de insecto
a rasgar silêncios
Raio de sol a brilhar
quando o último candeeiro
se apagar.

Assim seja isto e muito mais
sejas tu, amor
o cristal
a flor
o sopro de ternura
a reflorestar a alegria
de cada amanhecer.

MV

segunda-feira, 29 de junho de 2009

PRÉMIO LEMNISCATA



AGRADEÇO ESTE PRÉMIO AOS AMIGOS JOTA (POEMAR-TE), ISABEL (ARTISTA MALDITO) E "PRINCESA" ( O NOSSO CASTELO)


TRANSCREVO O TEXTO QUE SE ENCONTRA PUBLICADO NO BLOG "ARTISTA MALDITO" SOBRE O SIGNIFICADO DESTE PRÉMIO:


“O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores."

Sobre o significado de LEMNISCATA: “curva geométrica com forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.” Lemniscato: ornado de fitas; Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora).

MV



segunda-feira, 22 de junho de 2009

POEMA CAÍDO

Uma a uma as palavras foram caindo
da escada que sustinha a vida do poema

Um poema a respirar a madrugada das amoras
embriagado no roçar macio das uvas

Um poema que crescia enchendo a casa
ilustrando nas paredes a ternura dos dias

Um poema que chorava sozinho
quando todos sorriam

Agora sou sou eu que choro
sobre as lágrimas do poema caído

MV

terça-feira, 16 de junho de 2009

O MEU POEMA

















(foto MV)

O meu poema é a cal que a chuva arranca ao muro
ou o muro lavado pela chuva.
É a erva daninha crescida no meio do trigo
ou o trigo nascido no meio do joio.
É a fera de cornos em afiados
ou o touro bocejando lírios.
É a maçã podre a arrepiar-me
ou a cor dessa maçã a seduzir-me.
O meu poema sou eu Hoje
Ontem
Amanhã.
É intemporal.
O meu poema é sempre vento ou brisa no peito
na velocidade com que as mãos lhe colhem as palavras.

MV