sábado, 27 de março de 2010

FANTASIA



Quando o vento cruza os ramos da hortelã
esboroam-se pérolas que as aves dançam nas asas
Repousam palavras na sombra das horas
à espera  que uma quimera acene
O sonho cresce
a fantasia dança na tarde encantada
As aves baixam
trazem nas asas palavras já lavradas
Uma brisa balança-se nos recantos da tarde
e a hortelã descruza os ramos
numa dança indomada que ninguém vê.
E nesta fantasia, talvez vã
sou vento, ave, sonho
sou ramo de hortelã


MV

sábado, 13 de março de 2010

AGITAÇÃO



As palavras do meu poema
têm a cor da saudade.
Talvez a saudade absurda de sonhos
medrados  na inocência dos cravos.
As rimas do meu poema
têm o odor da saudade.
Talvez a saudade proibida
de sonhar em contra-mão.
As metáforas do meu poema
têm o paladar da saudade.
Talvez a saudade envergonhada
do hálito quente deixado pela voz das cigarras.
E assim me agito neste ninho de saudades
sem descanso para as minhas asas remendadas.

MV

sábado, 27 de fevereiro de 2010

ESPERANÇA


O bairro já adormeceu
A lua vela-lhe o sono

O peito acorda
em roseiras podadas

O vento em fúria engaiolado
Repouso dos sentidos fatigados

Um rasgo em sombras densas
A pele velha dos dias esfoliada
regenerada com loção florida

Com vagar
regatos de luar
correm em surdina
prenunciam outro dia
debulham palavras e sentidos
e inscrevem
neste velar clandestino
que numa queda
nem sempre se partem
as cordas do violino.

MV

sábado, 30 de janeiro de 2010

SEM TÍTULO (III)




Esqueci-me de vos sorrir
só porque algumas nuvens cinzentas me sobrevoavam
Esqueci-me de brincar com as palavras
Na minha boca Na vossa boca
Esqueci-me que a voz do vento
à noite me trazia recados vossos
Esqueci-me de vos tocar nos dedos em ternura
Esqueci-me de vos tocar no rosto em afago
Esperava fazê-lo amanhã
E não tive tempo de o fazer
Em vez de brincar de vos sorrir
escutar e de vos tocar
choro agora
e cubro-vos os rostos de pedaços de histórias
que ficaram por acabar
Porque partiram agora
e não esperaram pelo meu amanhã?
Por tudo isto
trago à rojo no peito as lágrimas
enroladas num poema
feito de dores mergulhadas em mares de fraqueza

MV


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

SONS DE ALEGRIA


Tudo o que eu queria
era substituir o som de instrumentos
pelos sons que invento.

O som do amarrotar do papel
onde esvoaçaram cantigas de sabor a mel
Dos passos inexistentes
sonhados em direcção ao céu
Do uivo do vento
por entre os buxos do canteiro
onde semeei sonhos de cheiros
O som do calcar das palavras
que não cederam aos meus pés
Do rebentar silencioso da rosa
que hoje me grita tão alto
Do respirar de uma simples imagem
dissolvida na solidão
Do crepitar das palavras atiradas ao fogo
única luz do miradouro desta imensa escuridão

Se o som de chuviscos de primavera
me tocasse as mãos
nascer-me-ia no peito uma seara de alegria

MV


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

RAÍZES DA MEMÓRIA



Na mais improvável hora
irrompem do solo
raízes que nos atam ao tempo.
Soltam-se inocentes
em gotejos de recordações.
O odor do retrato escondido
na última folha do livro.
As paixões levadas pelas andorinhas
em circuitos migratórios.
A folha colorida e perfumada
onde as mãos escreviam tontas
as palavras nunca enviadas.
Caravelas de sonhos
que ficaram abalroadas.

MV

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

ATRASA...


Espreguiça-se sem demora o cair da tarde
na distância que ainda o separa da lua

Atrasa a luz da memória
anunciada pelo verso nocturno

Atrasa a rede que vai lançar à onda
quase espuma

Atrasa a pétala que exala
a fragrância do silêncio

Atrasa o esconderijo de sonhos
empoleirados em beirais insidiosos

Atrasa em desmesura a ilusão
para não ver um poema
respirar na lonjura da ternura

MV

terça-feira, 24 de novembro de 2009

NÃO SER CAPAZ


Uma rosa ainda por ser
vergada pela brisa
por não ser capaz de crescer

Uma luz apagada
a doer
numa cidade escura
por não ser capaz de acender

Um girassol a agoniar
a chuva a esconder-se
por não ser capaz de o regar

Uma cerejeira vazia
num ermo de cheiro a solidão
por não ser capaz
de pôr cerejas em gestação

Um corpo
um desejo inusitado
a apagar-se
a contrair-se
num gesto desajeitado
por não ser capaz de ser amado

MV

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

PUGILISMO NO CORAÇÃO


De um lado
o vermelho rubro do coração.
Do outro
o cinzento pugilista da razão.

Sob os pés dançarinos
um ringue de palavras em dúvida.
Os músculos retesam-se.
Os punhos avançam.
O combate começa.

Espectadores praguejam.
Incitam.
As apostas estão em jogo.
Que ganhe o coração!
Que ganhe a razão!

E os pugilistas em golpe baixos
ensanguentam a lua
ensombram o sol
rebolam-se no ringue
já riscado de sangue.

Rasga-se um novo olhar…

Espreitam pelas ameias do medo.
E abraçam-se. E fundem-se.
O árbitro anula o combate.
Não vence o coração! Não vence a razão!

Estranhos são os humanos
que erguem ringues de pugilismo
dentro do coração.

MV