domingo, 13 de julho de 2008

EU QUERO ESTAR NA NOITE


Batia a noite com fúria nas pedras ainda febris do calor do ardente do sol. A cidade fechava-lhe a porta, indiferente ao encanto e às promessas que trazia agarradas aos primeiros fios nocturnos.

Queria proteger-se dos vadios que parecem não o ser, dos olhares das “feras” que atacam pela calada, das crianças apavoradas no silêncio cheio de palavras medonhas, dos sonhos que mitigam a tranquilidade logo à primeira luz da manhã… Assim, a noite não podia entrar.

Que engano!... Na calada do dia, num jogo de escondidas, tudo acontece: ladrões de palavras, de afectos, de lugares, de sentidos; feras adormecidas sem o chicote do amestrador vadio, medo do que se foi ou daquilo que se quer ser, sonhos loucos a atingir o êxtase da quase realidade.

Então que venha a noite. Abram-lhe a porta. Deixem-na entrar. Deixem-na roubar, deixem-na enfurecer, deixem-na atacar, deixem-na sonhar.

Eu quero estar na noite.


MV

1 comentário:

Manuela Fonseca disse...

Obrigado pela visita à minha humilde casinha.

Gostei deste texto. Muito bem conseguido, talvez...na calada da noite.

Um beijo de carinho*